VISÃO TEOLÓGICA

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VISÃO TEOLÓGICA DO CARISMA DA ORDEM DA IMACULADA CONCEIÇÃO. A inspiração carismática de uma Ordem não está expressa somente na Regra. Dá-se também na experiência do(a) fundador(a) – em nosso caso, na experiência privilegiada de Santa Beatriz da Silva – , na tradição da Ordem e nas Constituições Gerais aprovadas pela Igreja.
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Que é a identidade de uma Ordem?

É responder à pergunta: quem sou, quem somos, qual nosso posto e missão?
Não se trata de saber em que nos diferenciamos, nem muito menos em que acaso temos vantagem ou superioridade. Não se trata disso. Trata-se de perceber o que deseja o Senhor de nós, qual seu desejo e projeto, expresso na Fundadora, na tradição e no reconhecimento oficial da Igreja.
O carisma da Ordem da Imaculada Conceição é notadamente mariano, como o próprio nome indica. Contudo, visto que, o Mistério da Imaculada Conceição não tem sentido senão a partir do Mistério da Encarnação do Verbo, nosso carisma assume então uma característica essencialmente cristológica.
O Mistério da Imaculada Conceição de Maria é um mistério de enorme riqueza espiritual. É a ação misericordiosa de Deus com que se inicia o Novo Testamento, como pura graça. O Pai amou a Maria desde toda eternidade, gratuitamente, e em seu poder santo a santificou antes de criá-la. Deus se revela como dom incondicional. O Filho a redimiu com sua vida e morte. No coração e na raiz do mistério da Imaculada está a visão de Cristo Redentor com sua Redenção que se adianta à concepção de Maria como seu fruto primeiro e excelente.

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Desde pequena Beatriz foi educada no exercício das virtudes cristãs e em sua formação espiritual muita influência tiveram os religiosos franciscanos e as controvérsias da época, que versavam sobre o dogma da Imaculada Conceição ainda não definido oficialmente pela Igreja – o que só aconteceu 400 anos mais tarde. Esta devoção terníssima à Nossa Senhora, no Mistério de sua Imaculada Conceição, foi o traço característico da espiritualidade de Santa Beatriz.


Desejava realizar algo de grande em honra da Mãe de Deus. Não há dúvida que este desejo era-lhe inspirado pelo Espírito Santo, que progressivamente a preparava para fundar uma nova Ordem na Igreja.
A Ordem da Imaculada Conceição, fundada por Santa Beatriz da Silva é um Instituto religioso no qual as monjas, seguindo mais de perto a Cristo sob a ação do Espírito Santo, vivem o Evangelho segundo a Regra e a forma de vida aprovada pelo Papa Júlio II ( 17 de setembro de 1511).

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As Concepcionistas se consagram totalmente a Deus, desposando-se com Jesus Cristo, nosso Redentor, em honra da Conceição Imaculada de sua Mãe, pela profissão dos conselhos evangélicos de obediência, sem próprio e em castidade, vividas em comunhão fraterna e em perpétua clausura. Pelo divino caminho da humildade e pobreza de nosso Senhor Jesus Cristo e de sua bendita Mãe, inspirado a Santa Beatriz pelo Espírito Santo, as Concepcionista unidas de modo especial à Igreja e seu mistério, vivem sua condição humana no serviço do Reino ao qual se entregam como hóstia viva em corpo e alma. Sem a Igreja, uma irmã não é Concepcionista, mas com a Igreja ela o é totalmente. Por isso, a Concepcionista se situa plenamente na Igreja e, assim, dá testemunho do mistério da Igreja através da Imaculada Conceição, que só é compreensível porque ela se tornou Igreja em Jesus Cristo. A Ordem da Imaculada Conceição é totalmente contemplativa. Seduzida pelo amor eterno de Deus, vive o mistério de Cristo a partir da fé, da oração constante, da disponibilidade e do ocultamento silencioso.

As Concepcionistas, fiéis à sua vocação de vida religiosa contemplativa e fiéis ao carisma de Santa Beatriz, seguem com Maria os passos de Jesus Cristo, procurando ter sobre todas as coisas o espírito do Senhor e sua santa operação, com pureza de coração e oração devota. Em companhia de Maria, a Mãe de Jesus (At 1,14), as Concepcionistas permanecem num mesmo espírito de oração, conscientes de que isto é o único necessário (PC 5 e 7), realizando dessa maneira sua missão na Igreja, sendo uma fonte de graças celestiais. As Concepcionistas buscam o princípio e o fim de todas as coisas na oração, pois só na oração incessante (1Ts 5,7) podem conhecer a Deus como a seu único Esposo.

As Concepcionistas devem ter grande reverência e honra pela Santíssima Eucaristia, porque este mistério de amor contém todo bem espiritual da Igreja (PO 5).

A Ordem é também conhecida pelo nome de Concepcionistas Franciscanas. Com isso mostra-se que, como Santa Beatriz e suas companheiras e também suas sucessoras quiseram e professaram o espírito da doutrina e da veneração da Imaculada Conceição, próprio da Ordem Franciscana, é uma característica da Ordem. Outras Ordens não expressam essa doutrina e veneração desta forma. Portanto, ela faz parte da identidade das Irmãs Concepcionistas. A Ordem da Imaculada Conceição encontrou na espiritualidade franciscana um apoio para chegar a Cristo e à sua Mãe. Na espiritualidade franciscana exalta-se a grandeza de Deus que se fez pequeno (Cf Fl 2,6-11) de forma que a glória de Deus resplandece na pequenez do Filho de Deus, que despojando-se da condição divina assumiu a condição humana. A partir desse fato, cada pessoa é um ser especialmente importante e amada por Deus, de uma preciosidade única. Essa nova dignidade da pessoa aparece exatamente quando o ser humano participa da pobreza e da humildade de Jesus Cristo, que, no fundo, são formas de amor.

Segundo o teólogo franciscano Beato João Duns Scotus, todos são chamados a co-amar com Deus.

Deus já começou a amar antes de nós. Nós podemos co-amar com Ele. O primeiro ser humano a juntar-se a Ele foi Maria Imaculada. Exatamente seu caráter de Imaculada torna-a capaz de participar de ser co-amor puro com Deus, pois, afinal, ela tem um coração puro. Na verdade, os puros de coração verão a Deus! (Mt 5,8). A vida das Irmãs Concepcionistas, até sua história atual, é uma caminhada de co-amor puro com Deus, como se pode constatar em muitas Irmãs em vias de canonização e também nas inúmeras Irmãs que se tornaram santas “escondidas”.
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Os elementos que integram a vida e a espiritualidade da Ordem da Imaculada Conceição manifestam-se num processo de enriquecimento. Devem ser vividos em contínuo dinamismo, de acordo com os sinais dos tempos e como resposta às várias necessidades da Igreja, mantendo viva a lâmpada que o Espírito Santo acendeu em Santa Beatriz. Santa Beatriz fundou a Ordem da Imaculada Conceição para o serviço e celebração do mistério de Maria em sua Imaculada Conceição, sabendo que a honra da Imaculada Conceição nada mais é que um reflexo da glória de Deus na face de Jesus Cristo (Cf 2Cor 4,6). Evidentemente, a Imaculada Conceição não pode ser vista isoladamente mas a partir de Jesus Cristo. O sentido da Imaculada Conceição é a outra Concepção: a do Filho de Deus. Aquele que ela concebe já a havia redimido, como afirma João Duns Scotus. Ela carrega Aquele que a carregou. A veneração da Imaculada Conceição realiza-se na ação do Filho que vive para o louvor do Pai. A Imaculada é iluminada pela luz do Filho. Por isso, ela é uma figura exemplar da nossa fé.

As Concepcionistas obrigam-se, então, a viver as atitudes de a Maria no seguimento de Cristo. Dessa forma tornam-se sensíveis à missão de Jesus.

Maria segue a Cristo pela escuta fiel de sua Palavra, pelo serviço e pela entrega dos direitos maternos junto à cruz ( Jo 19,25) e se converte em caminho de seguimento. As Concepcionistas realizam o seguimento de Cristo, a exemplo de Maria, no silêncio que facilita a escuta da Palavra, na obediência aos planos de Deus sobre o mundo e a própria pessoa, nas simples tarefas cotidiana da vida e na entrega generosa da capacidade de amar, do desejo de possuir e liberdade de dispor livremente da própria vida.

Maria, feita tálamo celeste e singular do Rei Eterno, contempla silenciosa os mistérios de seu Filho, conservando todas as coisas no seu coração (Lc 2,19.51). As Concepcionistas, fazendo-se escravas do Senhor, como Maria (Lc 1,38), proclama em atitude contemplativa a soberania absoluta de Deus. A contemplação é seu apostolado. Com ela honram o povo de Deus, movem-no com seu exemplo e o dilatam com misteriosa fecundidade apostólica, tornando presentes o novo céu e a nova terra (Ap 21,1) onde Maria se encontra em corpo e alma (LG 59).

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Somos amadas gratuitamente como Maria. Nas Concepcionistas as relações com o Pai misericordioso são as mesmas de Maria: gratidão, confiança, esperança, abandono, louvor … . A misericórdia do Pai nos chega pela posse e operação do Espírito Santo, como em Maria. Sua grande operação é sempre separar do mundo e levar à comunhão com Cristo. Desejo do Espírito, abertura em submissão à sua ação serão sempre componentes fundamentais da espiritualidade e forma de vida das Concepcionistas. No Espírito desejam desposar-se com Jesus Cristo fazer-se um só espírito com Ele. Vivendo em clausura por amor a Cristo, as Concepcionistas renunciam ao serviço imediato da promoção humana e à presença física no mundo, convertendo-se em semente fecunda que do sulco aponta para a Ressurreição, em contemplação, onde Cristo renasce a cada dia no mundo e em anúncio peculiar da morte do Senhor até que ele volte (1Cor 11, 26). Se se fala da clausura no contexto dos votos, não é somente porque a Irmã Concepcionista faz um voto de clausura, mas porque a clausura está profundamente ligada ao espírito da Conceição: clausura como seio materno comum, e ao mesmo tempo, como seio materno da alma, no qual o Filho é concebido. A clausura prepara a conceição e na clausura a conceição acontece. Entende-se ainda a clausura como união com a paixão do Esposo, Jesus Cristo, e seu mistério pascal. Pensa-se na fidelidade de Jesus Cristo na cruz; Ele não fugiu da cruz, mas a aceitou por amor a Deus e aos homens, até a ressurreição. Assim, a cruz se tornou a clausura do Senhor.

Talvez a clausura pareça um tipo de "separatio", de separação. Na realidade, porém, é uma communio mais profunda com o mundo. O ponto essencial da doutrina do Concílio Vaticano II é exatamente a communio, a comunidade. Assim, compreende-se que também a clausura é uma forma aprofundada de comunhão. A clausura, como a cruz, é objeto de discussão. Mas quem a compreende, vive um profundo mistério de amor e de fidelidade de vida com Deus. Na clausura, as Irmãs Concepcionistas oferecem um sacrifício de louvor e vive também a experiência do amor. A clausura da Ordem da Imaculada Conceição contém uma opção de silêncio que facilita a oração, a ordem, a paz e a unidade da pessoa para o encontro com Deus. Neste encontro as Concepcionistas são com Cristo sacrifício de louvor oferecido ao Pai em nome dos homens e mensagem de amor, de paz e alegria que Deus oferece ao mundo.

O dom de Deus, o amor de Cristo, a prática dos conselhos evangélicos, o mistério da Imaculada Conceição, a vida contemplativa, a missão apostólica na Igreja, a amor mútuo… são vínculos que unem as Irmãs Concepcionistas e reforçam continuamente a sua comunhão.

Fontes:

– Regra e Constituições Gerais da OIC – Comentário às Constituições pelo Frei Herbert, OFM – Boletim Interfederal , artigo do Frei Javier Unanue, OFM – Texto do Curso de Espiritualidade II

Elaborado por: Irmã Magnólia de Maria, OIC e Irmã Lindinalva de Maria, OIC Mosteiro de N.Sra. da Conceição – Salvador – Bahia

“Santa Beatriz, dócil aos apelos do Espírito Santo, pôs-se à disposição de Cristo e de Maria num ato de obediência, fielmente mantido por toda a sua vida. Desta fidelidade de Beatriz, nasceu a Ordem da Imaculada Conceição”.

(Constituições Gerais, Art. 32)