Continuação:
 
IV. O PROCESSO DE FÉ
 
Uma vez reconhecido o fato de que em Beatriz se deu um claro encontro com Deus, agora para poder descrever sua espiritualidade, vamos dedicar nossa atenção aos diversos textos que nos oferecem as biografias sobre sua experiência de Deus. Já dissemos anteriormente que a espiritualidade é o resultado de uma vivência e esta, antes de ser teorizada se nutre da relação íntima e pessoal com Deus. Mas como a palavra experiência pode ter tantos significados, vejamos em primeiro lugar distintos tipos de experiência religiosa e depois nos aproximaremos da figura de Santa Beatriz.
1. A experiência de Deus na Bíblia
Sem tempo para sermos muito extensos, apresentemos os traços fundamentais que configuram a experiência de Deus tal como se mostra na revelação bíblica.
No Antigo Testamento
À pergunta “Como e onde encontro Deus e como e onde discernir sua vontade?” o Antigo Testamento responde com diversas tradições das quais só recordaremos muito sucintamente. A primeira é a tradição histórica: Israel se encontra com Deus em sua própria história de tal modo que suas confissões de fé são relatos históricos (Ex 15; Js 24; Dt 26, 4-10, sobretudo 5-9). Estas confissões de fé não somente recordam o passado senão também o atualizam através da liturgia. Junto da tradição histórica se encontra a tradição profética. O profeta, antes da mais nada, é homem de Deus que fará com que sua existência seja sinal do que crê e, por conseguinte, terá que suportar o desprezo, o isolamento e a solidão. Sua missão mais concreta seria a de “ler na trama dos acontecimentos, o plano de Deus”. A fé na Aliança é o critério de verificação da vontade de Deus nos distintos acontecimentos. O profeta nos fala do futuro vindo de Deus em contrapartida com a realidade atual.
No novo Testamento
A experiência de Deus se identifica com Jesus Cristo. Ele é o “profeta” que realiza os sinais do reino e é o Mestre que revela a nova sabedoria. Ele, que vive em comunhão com o Pai e é uma só coisa com Ele, chama ao seguimento, de tal modo que a experiência de Deus se identificará com aceitar seu convite para ser seus discípulos. Jesus Cristo é o “aqui” e o “agora” de todo encontro com Deus.
O processo de fé em Santa Beatriz
As biografias de nossa Santa consignam uma série de acontecimentos que atravessam os limites da ciência histórica, porque não são seu objeto. Referimo-nos às visões e às profecias descritas nelas e que, longe de se ser invenções lendárias, hão de ser consideradas como interpretações teológicas de fatos crentes. Descrevem para nós os distintos encontros com Deus mediante os quais Santa Beatriz vai modulando a vocação à qual é chamada. Pelo gênero literário em que estão escritas pertencem ao gênero das lendas ou hagiografias, cuja finalidade não era tanto a de ilustrar sobre dados históricos quanto de informar sobre experiências de fé. Pois bem, essa pretende ser nossa tarefa neste ponto: compreender a Santa Beatriz desde a ótica da fé tal como cremos que foram lidos e compreendidos pelos autores das assinaladas biografias e pelas irmãs que forjaram sua alma concepcionista em virtude do que estava exposto nelas.

Visão de Tordesilhas

Seguimos o texto da Vida I ou “Relação de Quiñones”:
A. INTRODUÇÃO “...e por isso a fez encerrar num cofre, estando na vila de Tordesilhas, onde esteve por três dias sem lhe dar nenhuma coisa para comer nem beber, e, ao cabo dos três dias, dali lhe retiraram, posto que havia estado em total abstinência, saiu forte e revigorada...”
B. O ENCONTRO 1. A ação de Deus “viu a Virgem sem mancha, vestida de hábito branco e azul, que trazem agora as monjas de sua Conceição Puríssima, consolando-a e animando-a com esforço muito grande”. 2. A reposta de Beatriz “fez voto de pureza e perpétua castidade, e se propôs recolher-se em alguma parte onde honestamente pudesse viver”.
A. A história é introduzida com um texto meramente narrativo que está nos contando um fato. Este tipo de narrativa é freqüente na introdução dos relatos vocacionais. Assim, sucede na descrição da aliança com Jacó: “Jacó saiu de Bercheba e foi a Haran. Chegando a certo lugar, se dispôs a pernoitar ali, porque já passava do pôr do sol. Tomou uma das pedras do lugar, fez dela travesseiro e deitou-se para dormir naquele lugar”(Gn 28, 10). Depois se verá que o sonho não consistiu em um mero dormir e a pedra posta sob a cabeça foi convertida em estela. Outro tanto aocntece na vocação de Moisés: “Moisés era pastor do rebanho de Jetro seu sogro, sacerdote de Madian”(Ex 3, 1). A Anunciação começa da mesma maneira: “Ao sexto mês foi enviado por Deus o Anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem chamado José, da casa de Davi; o nome da Virgem era Maria” (Lc 1, 26-27). Do mesmo teor é o relato dos discípulos de Emaús. Visto isso podemos pensar que nos encontramos diante de uma narração plena de conteúdos simbólicos. O cofre, neste caso, pode ser a expressão da prostração a que se viu submetida Santa Beatriz e recorda aquela outra em que viveu o povo hebreu no Egito, ou mesmo o sepulcro de Jesus Cristo; de fato, donde se espera retirá-la desfalecida, ela sai “forte e revigorada, como se nenhuma coisa dolorosa se lhe houvesse passado”. Resulta chamativo também o ato de serem três dias. É um paralelo aos dias em que Cristo permaneceu enterrado? Pelo que se dirá mais adiante, não é arbitrária esta hipótese. De fato, dizem que o tempo que esteve encerrada podia dever-se à malícia, ao esquecimento, “... ou por ventura querendo mostrar Nosso Senhor as maravilhas a sua serva, a que haveria de fazer a sua Mãe um serviço tão distinto, como depois se fez”. Por fim, prevalece o terceiro motivo, como se vê em sua lógica narrativa.
B. “Segundo a maravilhosa visão que no cofre se lhe mostrou, estando assim encerrada”. A visão é apresentada como exemplo de uma genuína experiência religiosa. Gênero literário muito conhecido no profetismo e mais próximo da tradição espiritual franciscana, sobretudo nas “Legendas”. Esta experiência religiosa é apresentada na forma típica de uma Aliança. Por um lado se descreve a iniciativa de Deus que mostra sua graça na presença “sacramental” da Virgem Imaculada, e, por outro lado, a resposta de Santa Beatriz ante tal obséquio, responde fazendo o voto de castidade, de consagração de sua virgindade e de retiro do mundo. Como se pode apreciar, o texto descreve um encontro com Deus na modalidade da Aliança.
C. Todo encontro com Deus determina uma nova direção na vida do crente. Se a história trágica dos ciúmes e conflitos na corte e seu posterior cativeiro é um lugar de encontro com Deus, o resultado necessariamente há de ser outra história cujo início está marcado com a “fuga” da corte e sua “peregrinação” até a terra da paz e “da lei da conversação salutar”. Deste modo a história do Êxodo é o arquétipo de que se interpreta esta outra história. A saída de Tordesilhas é um verdadeiro êxodo. Em resumo: A experiência religiosa de Santa Beatriz é apresentada em um contexto de fé pascal. Os “ciúmes de rainha”, quer dizer, o mal, leva Santa Beatriz ao cofre (escravidão do Egito), ali permaneceu durante três dias. Sem embargo, onde se espera a morte se acha a vida: a visão da Virgem Santa Beatriz responde ao que entendeu, mediante o “voto de pureza e perpétua castidade”. Era isto o que o Senhor lhe havia pedido? Não o sabemos, porém sim que é o que ela entendeu. Ë a primeira descrição de sua experiência de Deus significada como o primeiro momento vocacional.Esta experiência lhe tira da corte, “como de outro Egito”,para conduzi-la a um lugar “onde honestamente pudesse viver”. Deste modo a leitura teológica do sucesso insiste no terceiro motivo porque esteve encerrada: “querendo mostrar Nosso Senhor suas maravilhas nesta sua serva”.Estamos em um contexto histórico-profético que nos descreve um contexto histórico salvífico.
Deste modo a Virgem fica perfeitamente identificada como um lugar privilegiado do encontro com Deus e a visão adquire uma valorização eminentemente teologal, o qual nos permite distinguir claramente este tipo de experiências religiosas daquelas outras “visões”que nascem de naturezas infra-alimentadas física, psíquica e espiritualmente e que são manifestações claras de uma religiosidade enferma. Santa Beatriz não é uma visionária e sim uma mulher que tem claramente uma experiência de Deus na história da qual se deriva uma nova direção em sua vida mostrando nele uma religiosidade muito sã. E permitam-me uma sugestão: se os credos histórico-salvíficos se atualizam na liturgia, e este relato da experiência de Tordesilhas o é, creio que deve ser integrado na oração litúrgica da comunidade concepcionista, herdeiras de tão grande mãe.
Há um fato de singular importância que é necessário ressaltar: a presença da virgem se associa ao fato de que “Deus a havia livrado”. O sinal da intervenção de Deus é a Virgem com sua presença e sua palavra, deste modo a Virgem Maria é ícone de Deus, sacramento de sua presença. Da experiência nasce uma vocação cuja manifestação plena se consignará na terceira descrição do encontro com Deus. Porém, há de se dizer de novo que esta presença de Maria acontece em uma história de salvação. A relação de Beatriz com a Virgem dista muito daquela outra marcada por sentimentos subjetivos, devoções puramente sentimentais que são muito úteis mas não para crescer na profundidade do mistério.
 
A aparição de dois frades da Ordem de São Francisco
 
A. INTRODUÇÃO: “Vindo da Corte a Toledo, passando por um monte, saíram ao encontro dela dois frades da Ordem de São Francisco, saudando-a na própria l;íngua portuguesa”.
B. AMBIENTAÇÃO: Do Êxodo passa-se ao modelo das aparições do Ressuscitado em Santa Beatriz: Ela, vendo-os, teve grande temor e com esse temor começou a falar com eles e perguntar-lhes a causa de sua vinda...
• “Como elas temessem e inclinassem seu rosto para a terra, disseram-lhes...” (Lc 24,5)
• “Sobressaltados e assustados, criam ver um espírito” (Lc 24,27)
• “Eles pararam com ar entristecido...” (Lc 24,17)
• Os quais responderam com muita doçura e repouso, a perguntaram porque chorava e que tribulação era a sua”
Mulher, porque choras?...Mulher, porque choras? A quem buscas?(Jô 20,13.15). Ela lhes declarou sua pena e temor.“eles lhe disseram...”(Lc.24,19).
C. O ENCONTRO. A partir daqui se toma o esquema da Anunciação:
-Santa Beatriz: disse-lhe um dos Frades...sim antes a vinham consolar e...
-Anunciação: Não temas, Maria,...
-Santa Beatriz: faziam-na saber que havia de ser uma das maiores senhoras da Espanha, e que suas filhas haviam de ser nomeadas em toda a cristandade. – Anunciação: Conceberás em teu seio e darás à luz um Filho...
-Santa Beatriz: A isto respondeu que ela era virgem e nem com o imperador que a demandasse não se casaria, porque havia feito voto de castidade à Rainha dos céus.
-Anunciação: Como será isto, pois não conheço varão?
-Santa Beatriz: Disseram eles: O que dissemos, há de ser. –Anunciação: O Espírito Santo virá sobre ti...
Segue o relato dos discípulos de Emaús:
Santa Beatriz- Discípulos de Emaús
-Santa Beatriz: E foram-se assim falando com ela pelo caminho...
-Emaús: “E sucedeu que...o mesmo Jesus se aproximou e seguiu com eles.
-Santa Beatriz: E havendo chegado, ela rogou-lhes que entrassem e comeriam todos o que houvesse. Mas eles porfiando de não entrar, cederam a seus rogos como o fizeram em outro tempo com o Redentor os dois discípulos que iam ao povoado de Emaús: Ao aproximar-se do povoado para onde iam, Jesus simulou querer ir mais adiante. Porém eles lhe forçaram...

-Santa Beatriz: que entraram diante dela,

-Emaús: E entrou para ficar com eles,
-Santa Beatriz: Porém, logo que entraram, não querendo esperar, desapareceram diante dos olhos de todos,
-Emaús:...pero ele desapareceu de seu lado.
-Santa Beatriz: E creu firmemente que Nosso Senhor lhe havia feito mercê, conteúdo ainda que indigna de receber esta consolação.
-Emaús: Disseram-se um ao outro: “não estava ardendo nosso coração dentro de nós enquanto ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?...
-Santa Beatriz: E teve por certo que aqueles eram os bem-aventurados nosso Pai São Francisco e Santo Antônio de Pádua.
-Emaús: Então se lhes abriram os olhos e O reconheceram...(Cf. Lc 4,13-32)
A. De novo nos encontramos com uma narração. Seu lugar paralelo está no Evangelho de São Lucas: “Aquele mesmo dia iam dois deles a um povoado chamado Emaús, que distava... porém seus olhos estavam impedidos de reconhecê-lo”.(Lc 24,13). Em ambos os casos se trata de um caminho e do encontro com alguém a quem em princípio não se identifica. Os dois frades não são designados por seus nomes, como Cristo ressuscitado foi também um desconhecido para os discípulos de Emaús. Este desconhecimento primeiro se dá em quase todas as narrações das aparições do Ressuscitado. Por exemplo: “Não sabiam que pensar disto, quando se apresentaram diante delas dois homens...”(Lc24,4). “...ela ,pensando ser ele o jardineiro...”(Jô 20,15). Esta introdução narrativa nos deixa no umbral do central do relato.
B. Porém antes de descrever o sucesso em si, o anúncio da maternidade espiritual de Santa Beatriz, a narração nos introduz como em um preâmbulo: o contexto pascal. A presença de São Francisco e de Santo Antônio tem uma profunda significação: são os companheiros desconhecidos que, como o Redentor, saem a seu encontro; são o anjo da anunciação que lhe anuncia sua maternidade e, por último, são o sinal de Deus mesmo que mediante estes Santos lhe envia “esta consolação”. Seu papel nesta experiência de Deus ficará gravado na memória crente de Santa Beatriz. Era muito devota de São Francisco e de Santo Antônio, dizem as biografias.
C. O núcleo essencial deste encontro constitui o anúncio da maternidade espiritual . Em um contexto pascal e mariano se especifica à Santa Beatriz um novo elemento de sua vocação; porém, por sua vez observamos que a Anunciação está localizada em um relato da Ressurreição. Poderíamos lê-lo assim: do mesmo modo como o espírito fecundou a Virgem Maria, a experiência pascal de Santa Beatriz a fez fecunda dando a luz uma nova família na Igreja. Ela não entende porque o novo elemento vocacional está em contradição com o voto feito anteriormente. Na resposta dos emissários não há argumentos, como se aparece na anunciação, porque implicitamente estão contidos na narração pascal a que se inserta esta experiência.
Falamos de paralelismo e não de identidade, porque já uma variante muito significativa entre o texto comentado e o relato bíblico. A referência aos discípulos de Emaús continua interpretando a vocação de Santa Beatriz em um contexto pascal e, neste caso, neotestamentário.Sem embargo, na narração de Lucas, a experiência do Ressuscitado se situa nas Sagradas Escrituras e na fração do Pão, elementos que não aparecem em nosso texto. Em seu lugar se evoca a Anunciação, o qual pode induzir-nos a pensar na centralidade que ocupa a Virgem Maria na vocação de Santa Beatriz. Ela é para nossa Santa o modelo identificativo de sua experiência crente, e é “sacramento”do Mistério. De novo a Virgem é para Beatriz o ícone de Deus.
 
3.Terceiro passo no processo vocacional de Santa Beatriz
 
A. Introdução
:
“Vinda a Toledo, entrou no Mosteiro de São Domingos el Real e esteve ali em hábito honesto ...mais de trinta ano... recordando-se da formosura que de Deus havia recebido, determinou que nenhum homem nem mulher lhe visse o rosto enquanto vivesse...”
B. Preâmbulo:
E conversou neste lugar muito humildemente e com grande desapresso de sua pessoa, continuando muito a oração e penitência, e aborrecendo muito os vícios, e amando os próximos... E desta sorte se lhe foi acrescentando a graça da singular devoção à Conceição sem mancha da Rainha de Céu”.
C. O Encontro:
E concebendo ela em sua vontade e firme propósito de instituir a Ordem e hábito... não foi tardia em seus bons propósitos a diligente mulher; mas logo que pela inspiração soberana estendeu a mão de seu coração a coisas tão fortes. D. O discernimento: “... E suplicar o Papa pela aprovação e confirmação da Ordem”.”Querendo, pois, dar fim a sua determinação, ordenou a Ordem e maneira de viver que queria , e enviou-a a Roma a súplica da Rainha. Aprovou e outorgou tudo o Papa por sua bula”
A. Nos números 15 e16 já não se falam de visões. Sua estrutura é mais narrativa e se recorre a um novo elemento teológico para indicar a vocação de Santa Beatriz. De novo aparece o processo de ocultamento: a reclusão no mosteiro e o cobrir seu rosto com o véu de que já temos falado.
B. No parágrafo seguinte se enumeram seis elementos da espiritualidade de Santa Beatriz, que são como os pilares nos quais se forjará sua próxima aventura vocacional: a humildade, o esquecimento de si mesma, a oração, a penitência, o rechaço do mal e o amor ao próximo, - a refundição somente enumera quatro- e que serão como o ambiente necessário para que seja possível o novo encontro com Deus. Desta sorte”, diz o texto estabelecendo uma relação de casualidade entre o dito e o parágrafo seguinte. A inspiração é conseqüência de uma profunda e clara vida interior.
C. Aqui a experiência religiosa é apresentada como um ato de inspiração, pelo qual o termo “devoção” há de ser entendido em seu significado mais denso: a devoção como direção do coração, cultivada e alimentada por uma profunda e palpável vida espiritual. A decisão de fundar a Ordem nasce de uma nova experiência religiosa, neste caso “por inspiração soberana”. Se trata de uma ação do Espírito pela qual se ilumina a mente e se dirige o coração.
Deus é quem em sua soberana liberdade dirige os passos de nossa Santa.Já não se fala de visões nem de histórias, mas se recorre a um novo termo teológico para indicar a intervenção de Deus.Assim se reconhece nas CC.GG artigo 3: “Pelo divino caminho(R2) da humildade e pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe bendita (R8), inspirado a Santa Beatriz pelo Espírito Santo (PC1b)” e é o mesmo que se utiliza na Regra para indicar a origem da vocação concepcionista: “Aquelas que, inspiradas e chamadas por Deus” (Reg.1).
Encontramo-nos com a experiência religiosa que culmina no processo vocacional de santa Beatriz. Passaram-se mais de trinta anos. A inspiração. Essa é a palavra. No uso ordinário a palavra inspirar significa infundir no ânimo afetos, idéias, desígnios, etc. no sentido religioso se refere ao que Deus iluminou ao entendimento ou à vontade de um indivíduo. Por sua vez, a palavra iluminar significa que Deus ilustra interiormente a criatura com luz sobrenatural. Segundo estas definições podemos dizer que Santa Beatriz experimentou a graça de Deus que lhe indicou que caminho havia de seguir e lhe deu os dons necessários para recorre-Lo. Portanto, inspiração pode ser equivalente a revelação, iluminação, chamada ou vocação. Sem embargo, não é freqüente seu uso para indicar a origem de uma vocação religiosa específica15. Consultadas determinadas regras monásticas observamos que tampouco o utilizam, salvo no caso da Regra de São Bento, porém não refere à origem vocacional16. Sem embargo esta é a categoria que se utiliza na Regra de São Francisco para indicar a origem da vocação. No capítulo II da primeira Regra afirma:””Se alguém, querendo por divina inspiração tomar esta vida, vier a nossos frades, benignamente seja recebido por eles”(R2,1).Do mesmo teor é a Regra de Santa Clara: “Se alguma por inspiração divina vier a nós querendo tomar esta vida”( 3,1); e mais adiante, ao citar o que lhe escreveu São Francisco: Já que por divina inspiração vos haveis feito filhas e servas do Altíssimo e sumo Rei, o Pai celestial...”(6,3). Portanto o valor teológico da inspiração e seu significado há que encontra-lo no contexto literário no qual se escrevem as biografias17. Parece evidente sua significação vocacional descrita como uma iniciativa de Deus que cria uma nova consciência em Santa Beatriz, que lhe ilumina com certeza que quer dela e dirige o coração à consecução da missão proposta; luz que aparece na mesma medida em que nossa Santa cultivou a abertura do coração e madurou numa fé às iniciativas de Deus.
Como sabemos que se trará de uma inspiração autêntica? Creio que há dois elementos essenciais para considera-la como verdadeira inspiração: O biógrafo descreveu a vida de Santa Beatriz no Mosteiro de Santo Domingo. A caracterizou como muito devota d Imaculada e da Paixão do Senhor, descreveu as virtudes e práticas monásticas prévias à inspiração. Tudo isto é como o caldo de cultivo em onde pode acontecer uma genuína inspiração. Santa Beatriz, com sua piedade criou as condições para Deus poder por sua luz em sua mente e em seu coração. Não o dizem, porém com toda seguridade, há que supor a prática da liturgia e a atenção dos confessores com quem necessariamente deveu falar sobre o assunto. Máxime, se como cabe supor, na liturgia dominicana se celebra a missa e o ofício da Imaculada.
Um segundo critério é que Santa Beatriz submete o dom recebido ao discernimento da Igreja. Não é suficiente com sentir a experiência de Deus, pois, para saber se é autêntica ou em caso contrário se trata melhor da projeção de uma psicologia enfermiça, é necessário submete-la ao juízo crítico da santa Madre Igreja. Justamente o que ela faz ao envia-la a Roma. “e suplicar ao Papa pela aprovação e confirmação da Ordem”.
Seu Trânsito
Neste campo andamos um pouco às cegas, porque o texto não explica o modelo de referência a partir do qual seescreve, embora haja um certa paralelismo com a morte de Moisés.
A. Introdução: “... estando em muito devota oração no coro...”
B. Encontro “Filha, de hoje a dez dias hás de vir comigo, pois não é nossa vontade que se faça na terra aquilo que desejas”.
“Estas novas recebeu-as com muita conformidade e alegria, e logo no outro dia a informou a seu confessor e preparou sua alma e casa com muito cuidado. E o Senhor lhe enviou uma enfermidade segundo foi do seu agrado”.
C. O sinal “E ao levantar o véu que sempre trazia em sobre o rosto, viram uma estrela de ouro muito resplandecente, e seu rosto estava igual ao de uma pessoa que estava no céu”. O texto completo é o seguinte:
“... depois de cinco dias do convite, estando em muito devota oração no coro, lhe apareceu a Virgem sem mancha, Nossa Senhora, segundo ela mesma o disse depois, e que lhe disse: ‘Filha, de hoje a dez dias hás de vir comigo , pois não é de nossa vontade que faça na terra o que desejas’. Estas novas, ela as recebeu com muita conformidade e alegria, e logo no outro dia comunicou a seu confessor e preparou sua alma e casa com muito cuidado. E o Senhor lhe enviou uma enfermidade segundo foi do seu agrado. Depois de enferma, recebeu os sacramentos com quanto preparo e devoção pode; e quando lhe davam a Unção, ao levantarem o véu que sempre trazia sobre o rosto, viram uma estrela de ouro muito resplandecente, e seu rosto era igual ao de uma pessoa que estava no céu. Preparada desta maneira, quando chegou o dia seguinte aos dez de que lhe havia falado Nossa Senhora, com todo conhecimento e sossego, morreu em paz, dando sua alma ao Senhor que a criou...”
Chama a atenção o uso de determinados verbos pra entender o trânsito de Santa Beatriz. “Quis o Senhor”. E mais adiante: “E o Senhor lhe enviou uma enfermidade segundo foi do seu agrado”. Na primeira redação se acentua