PERFIL ESPIRITUAL DE SANTA BEATRIZ DA SILVA SEGUNDO A “POSITIO”
 
Tereis que me perdoar a ousadia de falar de santa Beatriz a uma comunidade que é herdeira de sua mesma vocação e portadora de seu carisma; conhecedora, quiçá mais por experiência que por textos escritos, das interioridades espirituais da Santa Fundadora. Maior temeridade a minha visto que se trata de um tema tão delicado no qual os aspectos subjetivos e a sensibilidade têm um papel determinante para responder ao tema proposto pela Confederação. Ademais a teologia espiritual não é minha especialidade. Mas, sabendo que meu papel é muito secundário neste encontro, limitar-me-ei a orientar a reflexão conjunta e a facilitar, dentro de minhas possibilidades, a conversação entre as irmãs sobre a espiritualidade de Santa Beatriz.
Devemos começar nossa colocação apontando algumas dificuldades. A primeira e mais e importante é a de selecionar as fontes que nos permitam conhecer com maior a objetividade possível, Santa Beatriz; a segunda, frente a multidões de definições de espiritualidade, é buscar entender o que é espiritualidade segunda nossa concepção. Uma vez abordados estes aspectos, creio que poderemos expor o que, a nosso entender, constitui o perfil espiritual de Santa Beatriz, ao menos em suas estruturas fundamentais.
 
II. QUEM É SANTA BEATRIZ?
 
Não nos deteremos em sua biografia porque isso é tema de outra conferência. A nós interessam agora quais as fontes que haveremos de utilizar para desenvolver nosso estudo
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Os artistas de todas as épocas têm ressaltado apenas diversos aspectos parciais de sua rica personalidade. Seu rosto caracteriza por uma beleza sem igual, sempre está iluminado por uma estrela, sinal de sua santidade. Unos acentuam sua vocação concepcionista apresentando Santa Beatriz em atitude extática diante da Imaculada; outros colocam em sua mão uma açucena ou uma palma – sinal da consagração? – não sabemos; há quem no-la apresente como fundadora e mãe de numerosas filhas ou simplesmente contemplando o Crucificado porque “era muito devota da Paixão do Senhor”. São importantes os dados que nos oferecem tais obras de arte, contudo, resultam insuficientes para desenhar seu perfil espiritual.
A bula Inter Universa nos apresenta algumas dimensões práticas de sal forma de vida monástica. É um documento de singular importância porque é a Igreja que estabelece o primeiro discernimento sobre aa vocação concepcionista própria de Santa Beatriz e da primitiva comunidade. Nela encontraremos determinados elementos objetivos de sua espiritualidade. Mais concretamente: a forma de vida monástica.
Que valor haveremos de dar às primeiras biografias? Durante quarenta anos haveis estado discutindo se Franciscanas sim ou Franciscanas não, que se a influência franciscana desfeminizou o carisma específico da OIC, etc. e parece que as diferenças ideológicas sobre este assunto vão muito longe. O que é evidente é que estas biografias estão escritas com arremate franciscano e fixaram a tradição concepcionista, pelo que se hoje queremos compreender a Santa Beatriz necessariamente temos que utilizar a hermenêutica franciscana, salvo no caso de que tais biografias sejam depuradas de tal maneira que as libere destes componentes franciscanos. Neste caso, Beatriz seria para nós uma tremenda incógnita.
Ante este panorama necessariamente temos que fazer uma opção, porque a polêmica não pode durar indefinidamente, seria gastar energias inutilmente. Em nosso caso nos deteremos ao que a Igreja disse de Santa Beatriz e para isso a “Positio” é um documento chave. Nela se encontra a Beatriz que a Igreja canonizou e desta Beatriz e não de oputra falaremos nesta conferência.
 
II. DEFINIÇÕES DE ESPIRITUALIDADE
 
Uma vez que sabemos de qual Beatriz que queremos falar, vamos agora dedicar nossa atenção a determinar o que entendemos por espiritualidade. Quer dizer: a que nos referimos quando falamos que uma pessoa é verdadeiramente espiritual? Ou quais os elementos que constituem a espiritualidade da OIC?
É freqüente encontrarmo-nos com pessoas que se chamam espirituais e, ao observar sua conduta caberia dizer melhor que são pessoas idealistas, que renunciam à realidade histórica e se refugiam na subjetividade ou na introversão e que, enquanto tais, refletem situações egocêntricas. Neste caso, sob a capa de espiritualidade nos encontramos com personalidades de religiosidade enferma. Evidentemente, se utilizamos esta idéia de espiritualidade não a podemos aplicar a Santa Beatriz porque ela concretiza em um projeto histórico sua própria experiência espiritual e porque o fez se manifesta claramente que gozou de uma incrível saúde psicológica e espiritual.
Outra acepção da palavra espiritualidade pode referir-se à exposição sistemática dos meios necessários para chegar à comunhão plena com Deus. Recordemos o que já foi dito sobre os graus ou vias para adquirir a perfeição. Esta idéia é correta mas insuficiente tanto quanto pode derivar até uma pura especulação.
O Novo Dicionário de Espiritualidade nos oferece uma possibilidade de entender a espiritualidade de um modo mais amplo, diz assim: as espiritualidades “são maneiras particulares de sintetizar vitalmente os valores cristãos, segundo a diversidade de pontos de vista ou de catalização”. A experiência de fé é uma e comum para todos assim como todos os diversos valores cristãos, no entanto, já nos escritos do Novo Testamento observamos diversas formas de especificar essa mesma fé, trata-se de diversas formas concretas de dar ênfase a determinados aspectos, etc. mas em todas elas temos que encontrar os elementos que são centrais na una e única revelação. Isto também sucedeu ao longo da história: São Pacômio sintetiza uma forma peculiar de experiência de Deus, o mesmo que faz são Francisco e São Bento. Entenda-se bem! Falamos de sínteses e não de particularizações. Neste sentido me parece que é um exagero afetivo a afirmação de que a espiritualidade de Santa Beatriz é “mariano-imaculista”. Certamente que a Imaculada é determinante na espiritualidade da OIC, mas não pode ser o centro nem o todo. Esclareçamos: a verdade da Imaculada é um elemento essencial do carisma concepcionista, mas não se deve confundir carisma e espiritualidade. O carisma é um dom específico dado para o serviço da Igreja, porquanto a espiritualidade se refere à forma de vida como se entende a vida de relação com Deus em suas múltipla variáveis. O mesmo Dicionário citado acima explica melhor: “... os elementos que caracterizam as diversas ‘espiritualidades’ são, antes de tudo, elementos que estruturam toda experiência cristã como tal, todavia sem assumir nas distintas ‘estruturas’ concretas o mesmo significado catalizador ou sintético”. Deste mesmo teor é a afirmação de Fredrico Ruiz, OCD, ao falar de espiritualidade: “...referimo-nos – diz o autor – a sínteses vivas dos valores cristãos com variedade de centros de referência em sua orientação e experiência. É importante advertir que tais realizações parciais são legítimas, sob condição de que em seu centro preferencial recolham de algum modo todos os outros valores essenciais e não se limitem consciente ou inconscientemente a uma somente”.
Entendida assim, onde encontrar a espiritualidade de Santa Beatriz? Não certamente em seus tratados de ascética e mística que não existem e que tampouco são essenciais para o estudo da espiritualidade. No entanto, se por espiritualidade entendemos essa forma particular de sintetizar os valores nos quais se crê, antes dos textos técnicos temos que buscar sua manifestação na experiência do crente, pois a espiritualidade antes de ser teorizada ela é vivida e disto sabe muito bem Santa Beatriz, porque ela sim, teve uma experiência da graça. Vejamos isto. Disse nosso autor: “Entendemos por experiência espiritual a participação consciente integral que a comunicação de Deus e a vida da graça despertam no crente”. Em outros termos, a espiritualidade nasce do encontro com Deus. Neste encontro Deus, de alguma maneira, se mostra, dá a entender algo de si mesmo e diz como quer ser honrado e adorado. O sinal deste encontro é a fascinação que sua presença suscita em nós. Por isso podemos observar como a todo encontro com Deus segue uma vocação, enquanto esta indica a participação plena do sujeito no mistério divino, uma nova sabedoria e desenvolvimento de um amor transformante, elementos que podemos encontrar perfeitamente em Santa Beatriz. Não há um tratado sistemático de espiritualidade mas sim podemos dizer dela que foi uma mulher tocada por Deus na mediação sacramental da Imaculada Virgem Maria. Sua experiência de Deus será chave para compreender sua espiritualidade e esta experiência está perfeitamente descrita nas suas primeiras biografias. Portanto, podemos falar de espiritualidade de Santa Beatriz, porque dela conhecemos sim sua experiência de Deus e a forma concreta em que serviu ao Altíssimo.
Demos um último passo. Vamos entender que as hagiografias são verdadeiros tratados de espiritualidade. De novo nos servimos de Frederico Ruiz, OCD: “Temos passado da doutrina para a vivência, e agora da vivência para a vida concreta de uma pessoa crente, naquela que se encarna essa doutrina e essa experiência. Sua existência mesma é teológica, enquanto realiza eminentemente a dupla dimensão de mistério: conteúdo forte do objeto da fé, e assimilação forte e pessoal do mesmo”. Penso que esta é a direção correta para estudar acertadamente as primeiras biografias de Santa Beatriz. As biografias não são um compêndio de história no sentido atual da palavra, tampouco são meras imaginações arbitrárias. São, em sentido técnico, hagiografias, ou seja, tratados sobre a santidade e a excelência das virtudes de Santa Beatriz. Assim o indica a Positio ao valorizar a Vida Primeira: “Queria-se fixar os principais dados biográficos de Beatriz e de sua atividade pelas religiosas da Santíssima Conceição de Toledo, a fim de que a recordassem, admirassem e seguissem”. Observe-se os três verbos utilizados: recordar, enquanto memória crente; admirar, enquanto percepção da excelência de vida de Santa Beatriz e seguir porque se lhe reconhece como mãe e modelo de vida concepcionista.
De fato, ao valorizar a Vida Segunda, reconhece-se o papel formativo e não meramente informativo que teve a Vida Primeira. Diz assim: o autor considerou a Vida Primeira veraz, útil para a formação das monjas, mas não a torna muito prática só a forma; pelo que lhe foi dada uma nova forma. O trabalho da primitiva comunidade concepcionista foi excelente e alcançou plenamente o objetivo proposto. Ao ler as declarações do processo de 1636 vê-se perfeitamente que a tradição já estava fixada desde o princípio e não somente para as monjas concepcionista senão também para outras pessoas alheias ao mosteiro como ser determinados os seculares e as mesmas monjas dominicanas.
III. DOIS INDICADORES
 
Uma vez apresentado o âmbito de nosso tema já podemos nos aproximar da figura de Santa Beatriz. Nas biografias há uma constante que é acolhida pelo Papa Paulo VI na alocução do Ângelus do dia 03 de outubro de 1976 e, ao elogiar a nova Santa, disse: “Esta nobre senhora, que viveu tantos anos com o rosto belíssimo coberto com um véu, nos permite hoje contemplar seu rosto radiante de santidade”. Rosto coberto e rosto radiante de santidade. Se voltarmos nossa atenção para as biografias observaremos a mesma dinâmica.
O ocultamento:
-foi ocultada em um cofre;
-ocultou-se em um mosteiro;
-ocultou seu rosto
-oi “ocultada” antes da profissão de suas filhas;
A luz:
-o cofre se ilumina com uma presença, no ocultamento do mosteiro recebe a inspiração;
-ao descobrir seu rosto este resplandecia de luz.
Creio que não é arriscado entender que nestes fatos se manifesta uma chave importante. Os acontecimentos em si, dizem o que dizem, mas por sua estrutura literária podemos deduzir que se tratam também de acontecimentos carregados de profundo simbolismo. Veremos isso mais extensamente na parte seguinte. Agora é-nos suficiente ressaltar este aspecto da personalidade de Santa Beatriz. Ela foi uma mulher que foi ocultada e que quis se ocultar. Se a beleza com que Deus a regalou era motivo de escândalo simplesmente a ocultou, e, se foi ocultada no cofre é, entre outros motivos, porque quis “nosso Senhor mostrar suas maravilhas nesta sua serva”. Como já dissemos, além do fato em si, se nos está indicando uma intenção.
Vamos nos fixar simplesmente no fato de cobrir o rosto com um véu. O testemunho de Joana de São Miguel nos diz assim: “A qual tomou por devoção trazer seu rosto coberto para sempre com um véu branco, que nenhum homem ou mulher lhe viu o rosto enquanto viveu, exceto quem a servia”. A Vida Segunda expressa isso de outro modo: “E ocultou de tal maneira com um véu seu rosto – que um dia dado ocasião de tão grandes tribulações – que não permitiu que nenhum secular, nem homem nem mulher, senão uma vez a Rainha da Espanha Isabel, a Católica, esposa do Rei Fernando e filha da outra Isabel”. Joana de Leiva nas declarações que fez no processo de 1636 o interpretou de outro modo: “... durante 36 anos ou mais de sua vida, até sua morte, levou por mortificação o rosto coberto com um véu branco, mortificação tão grande e inimitável...”.
Como se vê, temos três interpretações diferentes. Joana de São Miguel o entende como um sinal da vida espiritual, a Vida Segunda compreende como um “romper” com aquilo que lhe serve de escândalo e Joana de Leiva o apresenta como sinal do ascetismo de Santa Beatriz. No entanto, os diversos autores apresentam maior coincidência ao se referir ao que sucedeu quando lhe tiraram o véu para dar-lhe a Unção dos Enfermos. Disse Joana de são Miguel: “Chegando o tempo de sua morte foram vistas coisas maravilhosas. A primeira foi que, ao retirar o véu do rosto para a Unção, foi tanto o brilho que saiu de seu rosto, que todos ficaram espantados. A outra foi que na metade da fronte viram uma estrela, a qual ficou ali até que expirou, e dava grande luz e resplendor, como a lua quando tem mais luz”. Joana de Leiva volta a oferecer a interpretação que se dava deste fato em 1636: “À pergunta XXV respondeu que quando lhe administraram a Unção dos Enfermos, levantando o véu branco que sempre levava, saiu de seu rosto tanta luz e resplendor como de pessoa que gozava da visão de Deus, coisa que maravilhou os presentes, e apareceu sobre sua fronte uma estrela de ouro que permaneceu até que expirou. Estes sinais provavam as grandes virtudes e a santidade de sua Serva Beatriz da Silva”.
Nossa leitura pode ser a seguinte, o fato de velar seu rosto responde a diversos motivos: a “uma devoção”, ao conselho evangélico de evitar o escândalo ou a simples mortificação. Seja o que for, o sentido parece que há de deduzir-se do que sucede ao retirar o véu. Pois propriamente assistimos a uma revelação. Seu rosto resplandecia com “resplendor como de pessoa que já gozava da visão de Deus”. É o valor simbólico da estrela que assinalou sua fronte e que se converteu em um sinal de identidade da iconografia de Santa Beatriz.
“Na tradição monástica tomar o véu significa separar-se do mundo, mas também separar o mundo da intimidade na qual entramos com a vida de união com Deus”. Santa Beatriz dedicou sua vida ao cultivo das relações com o Absoluto até ser morada do mesmo. Transformada nEle, seu rosto irradia sua presença: a luz do Altíssimo. Creio que isto é o essencial.
Santa Beatriz foi uma mulher que teve uma clara, profunda e transformante experiência de Deus. Digo-o com outras palavras: Santa Beatriz, a mulher de rosto velado, abandonou-se no mistério de Deus, amadureceu em santidade até se transformar em mulher luz.
A idéia de ocultamento como lugar onde se cultiva a relação com Deus e como sinal de pertença foi acolhida claramente nas Constituições Gerais da OIC. O Artigo 4 fala de “ocultamento silencioso”. O Artigo 58, 3 diz que a clausura, entre outras coisas, “...se manifesta no ocultamento da vida escondida com Cristo em Deus (Cl 3, 3)”. E o Artigo 73: “A Concepcionista, para fortalecer sua vocação, ..., esforça-se em todas as circunstâncias por alimentar com a oração sua vida escondida com Cristo em Deus. Todas as irmãs procurem afastar de si tanto os impedimentos como os desejos terrenos e vaidades do mundo, para que, mediante a oração, possam fazer-se um só espírito com Cristo seu Esposo”(R 30). Daí há que entender-se o ocultamento como preparar o espaço para ser “morada do Filho de Deus”.
Continua